Basta dizer o seguinte: era uma cidade pequena no meio do deserto, quase inexistente, metida nos cafundós-do-judas. Nao tinha diversao, nem bares, nem boates. E o que a caracterizava acima de tudo era a falta de mulher. Ao todo uma meia dúzia para uns cento e cinqüenta estrangeiros. O pior é que estavam todas casadas e os maridos tinham senso feroz e homicida de propriedade.
Eles avisavam:
— Quem se meter a besta, já sabe. Corto o pinto e deporto!
E ninguém mexia com as infelizes. Elas viviam encerradas nos seus buracos, sob controle tremendo, sem alegria nenhuma. Quando abriam a boca, era so pra rir por de tras de seus veus pretos. Não cuidavam de si, não se enfeitavam. Enfeitar para quê? Para o próprio marido? Em condicoes normais não interessariam a ninguém, mas ali naquele deserto eram o alvo de atencao do esposo e dos cento e cinqüenta estrangeiros, coitados, que já nem se lembravam da própria condição humana.

E foi nesta cidade, esquecida de Deus, que Mike bateu um dia. Chegou, foi espiando e perguntando, a um e outro:
— Como é que é o negócio aqui, hein?
Disseram:
— Uma droga.
Resposta vaga que não satisfez a quem vinha de fora, e não conhecia coisa nenhuma da cidade, nem suas pessoas, nem seus costumes. No único lugar da cidade que vendia alcool, com um companheiro acidental, Mike explicou que fora para ali, sabe por quê? Baixou a voz:
— Matei uma menina. Estou fugindo da polícia.
Com a tremenda vitalidade dos seus vinte e cinco anos, trazia uma idéia fixa. E perguntou:
— Aqui tem mulheres boas?
— Tem e não tem.
Espantou-se:
— Como?
O outro foi mais claro:
— Todas as mulheres aqui são casadas.
— Todas?
— Todas.
E o Mike, na febre dos vinte e cinco anos, insistiu:
— Mas não se dá um jeito? Não se arranja uma solução?
O companheiro olhou por cima do próprio ombro e foi categórico:
— Não há solução.
Não houve limites para a decepção do Mike. Pulou:
— Essa é a maior! — E, cutucando o outro: — “Nem pagando mais? Muito mais? O dobro?”.
Batia no próprio bolso:
— Faz uma forcinha, faz!
Então, desanimado, o Mike começou a perambular pela cidade. E, pouco a pouco, foi perdendo as ilusões. No fim de dez dias, era outro homem: fez uma meia dúzia de amigos e perguntava:
— Como é? As mulheres daqui não dão as caras?
— Você é besta!
— Por quê?
Riram na cara dele:
Você pensa que os maridos vão deixar? A mulher que meter o nariz do lado de fora está frita.
Mike coçou a cabeça, praguejou:
— Terra amaldiçoada!
Nostálgico de seu pais, nostálgico das mulheres faceis, acabou se lembrando da namorada que matara. Contou que ela o passara para trás. Mas, naquele fim do mundo, em pleno Oriente Medio, suas idéias sobre a fulana já eram outras. Dir-se-ia que o ódio ia, gradualmente, extinguindo-se no seu coração. Admitia:
— Que coxas!
Os outros se entreolhavam, numa inveja medonha e houve quem explodisse:
— Você é uma boa besta. Não devia ter matado. Que palpite infeliz!
Mike acabou reconhecendo:
— Foi um golpe errado!
E, agora, no auge do seu sofrimento ja se contentaria com o mínimo, ou seja, “ver” uma das mulheres locais. Seria uma satisfação visual, uma espécie de triste e idiota compensação.
Interpelava os habitantes: “Como é que vocês agüentam?”.
Os outros respondiam: “A gente se acostuma”.
E ele, passando a mão pelos cabelos,dava murros na mesa:
— Pois olha! Eu não agüento. Qualquer dia eu estouro!
A falta de uma mulher doía mais nele do que fome, sede. Dizia a si mesmo:
— “Se, ao menos, um desses pilantras morresse!”.
Um dia, no boteco, aventurou:
— Sabe o que é que mais me admira? Que me deixa besta?
— O quê?
E ele, na sua fúria contida:
— Que ninguém aqui tenha se lembrado de matar um pilantra desses e ficar com a mulher!
Houve um silêncio. Todas as caras presentes pareciam espantadas. Um fulano, que cocava o pé, interrompeu esta função. Estava de boca aberta,num assombro absoluto. Deixou-se cair numa cadeira, como se a idéia, que jamais lhe ocorrera, o deslumbrasse. Mike, vendo o efeito, tratou de explorá-lo.
-Era direito aquilo, era? Enquanto uma meia dúzia tinha mulher, cento e cinqüenta sujeitos não.
Deu outro murro na mesa:
— Não somos palhaços de ninguém! — E esbravejava, cada vez mais exaltado:
— Está errado, erradíssimo!
Então, pouco a pouco, as bocas, as mãos, os olhos foram se transformando. Dir-se-ia que a loucura do Mike contagiava todo mundo.
E o rapaz,arregimentando adesões, berrava:
“Por que é que o marido tem mais direito do que nós?”.
Formulava o problema com uma expressão de triunfo: “Respondam”. E, fora de si, aduzia o argumento numérico:“O marido é um só e nós somos cento e cinqüenta!”.
Mike queria, em resumo, que fossem, de casa em casa, arrancar as mulheres. Houve um súbito berro coletivo no boteco. E teria acontecido o diabo se, de repente, não irrompesse, ali, um sujeito, de pés descalços e barbudo como os outros. O sujeito anunciou:
— A mulher do Abdullah está morrendo!
De um instante para outro, a fúria se fundiu em espanto.
Mike apertou a cabeça, entre as mãos, gemendo:
— É o cúmulo! É o cúmulo!
E, sem mais palavra, aqueles homens atormentados dirigiram-se, num maciço e solidário grupo, para a casa do Abdullah. Iam fazer o quê? Nem o próprio Mike poderia dizê-lo. Crispavam as mãos e suas gargantas estavam secas e ardentes. A medida que iam avançando pelas estradas empoeiradas, o Mike tomava-se de uma fúria obtusa contra as potências misteriosas do destino.
E só dizia entredentes:
“Como é que pode? Como é que pode?”.
Parecia-lhe provação demais que morresse uma mulher num lugar em que existiam tão poucas. Enfim, chegaram diante da casa do Abdullah. Mike adiantou-se, mas não chegou a bater, porque o próprio Abdullah surgia diante do grupo, apontando um rifle. Ládentro ninguém chorava pela mulher que, com cancer no peito, acabara de morrer. E o dono da casa, com os olhos injetados, a boca torcida, avisou:
— Ninguém toca em minha mulher! O primeiro que der um passo come fogo!
Era taciturno e mau, e cumpriria a ameaça. Então, Mike, mais moço que os outros, com a memória ainda recente das mulheres da cidade, pediu, implorou:
— Não queremos nada demais. Só espiar tua mulher. Um pouquinho só.
O marido acabou deixando. E houve o desfile, maravilhado, pelo quarto, onde estava a infeliz, um esqueleto com um leve, muito leve, revestimento de pele. Eram homens praticamente loucos, possessos. Mas respeitaram a morte. Alta noite, omarido apanhou de novo o rifle e foi enxotando:
— Fora daqui, todo mundo! E não pensem que eu sou besta de enterrar minha mulher! Não confio em nenhum de vocês seus cachorros!
Saíram todos, já na antecipada nostalgia do rosto feminino. Sozinho, o marido fechou tudo, arriou as trancas da porta. E, então, encerrado com a mulher, derramou querosene na defunta e em si mesmo; riscou um fósforo e fez a dupla fogueira.
Do lado de fora, os homens rondavam, enfurecidos.
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* Baseado no c0nto "Os Seringueiros" de Nelson Rodrigues